Inverno e colheita de café: quais os pontos de atenção?
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Inverno e colheita de café: quais os pontos de atenção?

Inverno e colheita de café: quais os pontos de atenção?

Produtor deve ficar atento principalmente ao surgimento de pragas e doenças nos cafezais. Época também é de colheita

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O mês de junho é uma época de fundamental importância para o cafeicultor: é o início da colheita que marca o principal momento das famílias produtoras. Outro fator relevante é a chegada do período invernal, marcado por clima mais seco e frio. Mas entre inverno e colheita de café o que o produtor deve estar atento?

O estado de Minas Gerais é o principal produtor brasileiro de café, especialmente o do tipo arábica. É nesta região que está localizada a Cooxupé, cooperativa cafeicultora de referência no Brasil e do mundo que congrega mais de 16 mil produtores.

A cooperativa mantém um departamento de Desenvolvimento Técnico que, entre outras atividades, oferece assistência técnica gratuita aos cooperados. Eduardo Renê, coordenador deste setor da cooperativa, esclarece os principais pontos em que o cafeicultor deve ficar atento quando se fala em inverno e colheita de café.

O inverno começa dia 21/06. Esta estação exige do produtor alguma atenção especial na colheita ou no pós-colheita?

ER: No inverno, uma estação caracterizada pelo frio e pela seca, o cafeeiro está dormente e o desenvolvimento vegetativo está paralisado. Apesar disso, o clima frio e seco é favorável à ocorrência de algumas pragas, principalmente o Bicho Mineiro, uma lagarta que se alimenta da camada interna da folha do café, formando lesões que tem aspecto de minas, por isso este nome. Os ácaros também são outras pragas favorecidas pelo clima seco. No café, os que mais ocorrem são o Ácaro Vermelho e o Ácaro da Mancha Anular. Estas pragas podem provocar uma desfolha intensa do cafeeiro, prejudicando o pegamento da florada que ocorrerá na estação seguinte (a primavera) e, consequentemente, causando perda de produtividade e prejuízo para o cafeicultor. Por isso, é importante que o produtor esteja atento ao ataque das pragas na lavoura para intervir com o manejo adequado e no momento correto.

Além das pragas, existem outras preocupações?

ER: O cafeicultor precisa estar atento às condições climáticas, pois é um momento em que a colheita está a todo vapor nas fazendas e os terreiros de secagem de café normalmente estão cheios. E, apesar de ser uma estação tipicamente seca, podem ocorrer algumas chuvas. Assim, o café que está secando no terreiro tem alto risco de perda na qualidade da bebida devido ao ataque de fungos durante a secagem. Por isso, o produtor precisa ficar de olho na previsão do tempo. Caso tenha previsão de chuvas para os próximos dias, ele deve implementar algumas estratégias na colheita e pós-colheita para reduzir o risco de perda na qualidade.

Quais seriam essas estratégias?

ER: A primeira ação é interromper ou reduzir o ritmo da colheita, o que vai depender de cada fazenda. Esta estratégia tem o objetivo de diminuir o volume de café no terreiro. Outra ação importante é liberar os secadores com os lotes de café que já estão abaixo de 16% de umidade, que podem ser armazenados por um período curto sem risco de perda de qualidade. Após a liberação dos secadores, os lotes de café que já estão abaixo de 30% de umidade no terreiro devem ser enleirados e cobertos. Os lotes que estão com umidade acima de 30% devem ser enviados para o secador e aqueles com umidade muito alta não podem ser amontoados e cobertos, pois pode ocorrer alguma fermentação indesejável. Estes lotes devem ficar esparramados em camada fina e permanecer no terreiro tomando chuva porque a umidade do café já é alta e há menor risco de perda da qualidade. Lotes que tomaram chuva não podem ser misturados com outros lotes.

O cafeicultor deve se preocupar com doenças nesta estação?

ER: Além de prejudicar a secagem, quando ocorrem chuvas no inverno, a condição de clima frio e úmido pode provocar a ocorrência das doenças de inverno, principalmente Mancha de Phoma e Mancha Aureolada. Estas doenças causam lesões nas folhas (também provocando a desfolha), seca de ramos e pode atacar também os chumbinhos, que são os frutos de café na sua fase inicial, logo após a florada. Em condições de ataque mais intenso, podem provocar grandes prejuízos na produtividade das plantas atacadas. Estas doenças evoluem muito rapidamente na lavoura, por isso o monitoramento é importante para intervenção rápida quando necessário. A ocorrência destas doenças é também favorecida por ferimentos na planta causados pelo vento ou pela colheita. Por isso, é importante o plantio de quebra-ventos nas lavouras e uso de fungicidas a base de Cobre após a colheita para prevenir a ocorrência. A disseminação da Mancha Aureolada pode ser favorecida por máquinas contaminadas que foram utilizadas em lavouras com a presença da doença. Para evitar esta transmissão é importante fazer a desinfecção das máquinas com hipoclorito de sódio sempre após a colheita de algum talhão que tiver a doença. O uso de nitrogênio em excesso também favorece a ocorrência destas doenças, então é importante fazer análise de folhas da lavoura e seguir a recomendação do seu técnico.

A geada é uma preocupação para o cafeicultor?

ER: Sim é outro ponto de atenção.  A geada é um fenômeno de temperaturas extremamente baixas, próximas de 0°C. Estas baixas temperaturas podem causar o congelamento da água presente nas células das plantas localizadas nas partes mais baixas das fazendas, que são os locais mais frios. Este congelamento da água da célula pode causar a morte de plantas jovens, em formação, e de ramos de plantas adultas, provocando perda de até 100% da produção do ano seguinte, nos casos mais extremos. Para prevenção dos danos causados pelas geadas são necessárias intervenções mais complexas como uso de alguma estratégia para formação de fumaça nas noites com alto risco de geada, proteção física das plantas ou irrigação da lavoura.

O que mais deve ser observado pelo cafeicultor?

ER: No inverno é comum observar um amarelecimento das folhas novas, principalmente de lavouras mais jovens. É uma reação fisiológica da planta ao clima frio. Neste caso, o produtor pode ficar tranquilo que não é doença, nem deficiência nutricional e não tem necessidade de realizar nenhuma intervenção na lavoura para correção deste sintoma.