Para ABIC, grande desafio para a indústria de café está na legislação
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Para ABIC, grande desafio para a indústria de café está na legislação  

Para ABIC, grande desafio para a indústria de café está na legislação  

Diretor executivo, Celírio Inácio da Silva, fala sobre recente portaria que estabelece norma técnica sobre o controle do café torrado e moído no Brasil

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A partir de 2023, os consumidores que forem aos supermercados comprar café deverão contar com mais garantias de procedência do produto.

Isso porque é dessa data em diante que passa a valer uma nova portaria que define um padrão de classificação do grão. Incluindo, assim, procedência, tipo de torra e até avaliação sobre impurezas.

Dessa forma, até o café descafeinado precisará ter um teor de cafeína abaixo de 0,1%. E, com isso, se preenche uma lacuna entre produção, comercialização e fiscalização daquilo que chega à mesa do consumidor.

A normativa é uma conquista da cadeia produtiva já que não havia ferramenta legal para o controle oficial do café torrado. O Diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café – ABIC, Celírio Inácio da Silva, fala, pois, sobre a nova portaria.

HUB: Como você avalia a nova portaria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento em relação à padronização do café torrado, em vigor desde maio?

Celírio: Penso que ainda é cedo para uma avaliação sobre essa portaria. A verdade é que está havendo uma ampla política pública sobre padrões oficiais de produtos de origem vegetal, onde o café torrado e moído também foi contemplado. As expectativas do setor são bastante grandes e são o primeiro passo dessa ampla política pública. Desde o início a ABIC vem atuando e continuará trabalhando junto ao governo federal. Para que todo o setor possa se desenvolver e o consumidor esteja cada vez mais satisfeito.

HUB: E como a nova portaria do governo chega para a indústria?

Celírio: Os associados da ABIC já praticam a grande maioria das medidas dessa portaria. Dessa forma, atualmente, a Associação representa 84% da indústria de café, que através dos seus programas de autocontrole, criados pela entidade em 1989, serviram de base e foram reconhecidos pelo próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – que trabalhou e buscou parâmetros que já são praticados pelo setor. Penso eu que o grande desafio para o setor não está no padrão em si. Mas, na legislação acessória do MAPA que a indústria terá que observar a partir de agora, até porque a normativa é uma conquista de toda a cadeia produtiva.

HUB: Quais as perspectivas da ABIC em relação às mudanças para o mercado de cafés?

Celírio: O ponto principal é muito bem-vindo. Com a publicação desse padrão no MAPA, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento passa a ter a competência, a partir de agora, para combater as fraudes no mercado de café. Infelizmente, mesmo se tratando de minoria, a clandestinidade, o cometimento de fraude bem como adulteração ainda existem. O que nós esperamos é que a partir de agora a atuação do MAPA sempre esteja com foco no combate e atuação aos criminosos. E a indústria que é justa, séria e comprometida possa continuar trabalhando para oferecer o que o consumidor deseja, com transparência em todo o processo.

Celírio Inácio da Silva – Diretor executivo da ABIC

HUB: A ação de controle e fiscalização também poderá acontecer por meio de denúncias? E no caso dos cafés reprovados, a comercialização continuaria?

Celírio: A legislação prevê que produtos tidos como desclassificados não possam ser comercializados, sob pena como sanções, multas e apreensões. O MAPA poderá receber denúncias e reclamações e a ABIC continuará desempenhando o trabalho de levar os casos de fraudes a órgãos competentes. Acredito que a colaboração entre setor público e privado é fundamental. Continuaremos muito atentos para que todos os casos de fraudes sejam trabalhados juntos com o MAPA. E acreditamos que o desenvolvimento desse programa de combate a fraudes se tornará o diferencial, a partir de agora, com a publicação e efetivação da portaria. 

HUB: Na sua avaliação, o novo padrão de classificação pode mexer com a imagem do café no mercado internacional?

Celírio: A imagem do café no mercado internacional é muito positiva. O Brasil já é líder na produção e exportação e a comunidade global já o reconhece como o melhor café do mundo. Por outro lado, os programas de certificação, pureza e de qualidade da ABIC também já foram reconhecidos pela Organização Internacional do Café (OIC) como exemplos a serem replicados para outros países. Portanto, acredito que o impacto do novo padrão não deva ser relevante para a imagem do café internacionalmente.

HUB: E em relação aos produtos gourmet, superior e especial, como os cafés chamados de “sustentáveis”. Eles já estariam mais alinhados à nova política do MAPA?

Celírio: Não necessariamente os cafés com notas gourmets ou superior, entendidos como sustentáveis, estariam alinhados à nova política do MAPA. Essa portaria estabelece, pois, um padrão mínimo de qualidade. Mesmo aqueles cafés que estão na base da pirâmide, como os cafés tradicional ou extraforte, já estão alinhados com essa exigência. Este parâmetro não é resultado de análise sensorial que irá determinar o menor ou o maior nível de alinhamento a essas regras do MAPA. Isso continuará com o setor privado, que diante de análises comunica e continuará comunicando ao consumidor qual será a sua bebida de preferência.

 HUB: E em relação à nova safra do café que está começando. Qual a expetativa da ABIC em relação à produção?

Celírio: Bom, começamos o ano de 2022 com uma expectativa bastante pessimista com relação à safra do café. Inclusive a CONAB, no último realinhamento de números, reduziu a projeção de 55,7 milhões de sacas de 60 kg para 53,4 mi. Mas, a expectativa que estamos tendo hoje, e eu digo hoje porque dependemos diretamente do clima e das condições que podem vir a melhorar ou piorar a safra, estão sendo bastante otimista, tanto para o Conilon como para o café tipo Arábica.

As chuvas estão acontecendo com maior regularidade, existe um retardamento de certa forma natural da colheita diante dos eventos climáticos que tivemos no ano passado e, por enquanto, podemos dizer que a expectativa é boa para o setor. E o que for acontecer agora (entre junho e julho) caso não haja nenhuma intempérie, é bem melhor do que se esperava no início de 2022, tanto em volume como, por fim, em qualidade de produção.